Sensa Crítica

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Local: Brazil

9/27/2008

Eu sou solidário porque nós somos miseráveis


Malaui? Onde fica? É uma ilha asiática? “Não, olhe no mapa...”. Com o conselho, dado à Madonna logo no princípio do filme, começa a grande lição moral de “Eu sou porque nós somos” (“I am because we are”, de Madonna, ops, Nathan Rissman, 2008).

E é esse um dos pouquíssimos méritos do documentário, “abrir os olhos” dos espectadores para a lamentável situação do país africano. Sim africano, está no mapa. Além disso, “o Malaui é um país com doze milhões de pessoas, das quais mais de um milhão são órfãs”, a maioria em decorrência do vírus da AIDS. E se o binômio África Negra+HIV se unem na grande tela, o resultado é um desfile de clichês sobre tudo o que de ruim pousa sobre o grande continente “amaldiçoado”. Miséria, doença, precariedade, falta de informação e, é claro, religiões primitivas que dificultam todo o processo de esclarecimento da população local. Uma das únicas – talvez a única, posso ter dormido quando apareceu mais alguém – representante governamental é a Ministra das Relações Exteriores, que se mostra impotente diante da força dos líderes tribais locais, ainda presos a antigas tradições, que ajudam a proliferar doenças. Soluções? Nossa, é tão difícil, já que o problema não é (apenas) de saúde pública. E pára por aí o que se pode chamar de “fala de autoridade” no Malaui.

Mas e as causas dos problemas? Colonização, guerras tribais? Não, nada disso. Parece que simplesmente a malária e a AIDS se instalaram sozinhas, como uma ira dos deuses que se abate sobre os vitimados, gerações inteiras de crianças chefes de família – isso quando esta sobrevive. Pois é, isso tudo é o que menos importa em 90 minutos do documentário-campanha encomendado, escrito e produzido pela diva do pop. É como um mega vídeo clipe da desgraça, uma versão estendida de um dos filmes publicitários da ONG CARE (até imagem em P&B tem!).

O relevante é reforçar o flagelo que se tornou a África – pouco importa se é o Malaui, a Etiópia ou a Somália – o que é bom para lembrarmos que o mundo não é só Londres ou Nova York. E puxa, eles sofrem mesmo! Dá-lhe sofrimento, associado ao-altruísmo-e-esperança-deste-belo-povo-apesar-das-dificuldades. Crianças desnutridas e ressequidas sorriem diante da orfandade e da fatalidade da AIDS, enquanto uma Madonna igualmente sorridente distribui esperança aos desafortunados.

Para valer pelo menos 10% do ingresso, uma boa idéia de Russman (será dele mesmo?) é colocar as crianças contando suas próprias histórias. Com o primeiro personagem ele é até bem-sucedido nisso (lembra um programa exibido pelo Futura que tinha um jingle com o refrão “Mostre-me sua escola/do outro lado do mundo”. O título era algo parecido, mas confesso que não me recordo). Mas ao bater na mesma tecla da estética da pobreza, com closes e longas tomadas na miséria alheia, chegando ao desnecessário, as histórias se repetem, o que cansa – e muito – o espectador.

No fim das contas, o conselho é: se Mrs. Guy Ritchie e Bill Clinton (sim, o senhor presidente da William J. Clinton Foundation também dá o ar de sua graça), nós também podemos! Afinal, marketing social tá na moda e faz bem à beça para a consciência.


“Eu sou porque nós somos” (“I am because we are”)

Direção: Nathan Rissman
Roteiro: Madonna
Elenco: Madonna, Desmond Tutu, Jeffrey Sachs, Bill Clinton
Fotografia: Nathan Rissman, Kevin Brown, John-Martin White, Grant James
Montagem: Danny B. Tullmúsica/Music: Olivier Samouillan
Música: Olivier Samouillan
País: Estados Unidos / Reino Unido / Malaui
Ano: 2008
Duração: 90min